O despertador do rádio relógio tocou revelando a rádio kiss fm durante alguns segundos que, no susto, ele desligou. Era a vez do despertador do celular com sua música polifônica irritante finalmente fazer sua parte. Olhou as horas e pensou consigo mesmo: "Está cedo, eu não preciso acordar cedo". Reprogramou o alarme e voltou a dormir.
...
Novamente o despertador tocou, o celular nervoso saltava no criado mudo de madeira compensada fazendo mais barulho que a música. O garoto desligou-o novamente e decidiu que era hora de acordar, lembrou do seu objetivo do dia e sorriu.
Pulou para o banheiro despindo-se em segundos e sentiu a brisa da manhã de inverno tocar seu corpo quente que acabará de sair debaixo de três cobertores. Não se abalou: pegou a toalha, pendurou no gancho, tocou o pé no piso frio e ligou o chuveiro, aliviando o clima dentro do cubículo de seu banheiro. Pôs o pé na água para regular a temperatura e decidiu que um banho mais frio seria adequado. Entrou de corpo inteiro e percebeu que ainda sorria.
Vestiu-se com as roupas novas que havia comprado no dia anterior. Essas não tinham lhe agradado tanto na loja, talvez por que ainda não tinha experimentado o conjunto inteiro, mas naquele momento cairam-lhe bem. Ele ainda sorria, mas não sabia se era pelo mesmo motivo do despertar ou se as roupas eram tão bonitas assim. Tomou seu achocolatado acompanhado de um pão com mel sentado no sofá. Sua mente ia longe e ligou uma música de um filme que assistira há dois dias pela terceira vez, mas desta última, acompanhado.
Mordiscou o pão e lembuzou seus lábios de mel
"
Cause this is what you've waited for
A chance to even up the score"
Deu um gole no achocolatado e percebeu que faltou pó em relação ao leite. Provavelmente o açúcar do mel que ainda pairava em sua boca fez ele achar isso, mas não sabia e resolveu não se preocupar.
"And as these shadows fall on me now
I will somehow"
Sua mãe gritou da cozinha para abaixar o volume da música
"Cause I'm picking up a message Lord
And I'm closer than I've ever been before"
Ele sentou-se na cadeira, plugou o pendrive na entrada do computador e começou a passar os filmes para ele.
"So if you have something to say
Say it to me now"O grito do cantor do filme arrepiou os pêlos do braço dele. Ele abaixou mais uma vez o volume com medo de sua mãe reclamar deixando o filme no mudo, então voltou a aumentar.
"Say it to me now
Say it to me now"Ouviu o grito de sua mãe na cozinha pedindo pra abaixar.
Terminou a transferências dos arquivos, pegou as legendas dos filmes, tirou o pendrive e desligou o computador como força do hábito. Ligou-o novamente por que não deveria ter desligado.
Foi novamente até seu quarto e tropeçou nas roupas que havia tirado para tomar banho. Xingou. Pegou sua cueca e levou ao cesto de roupa suja e voltou ao seu quarto. Começou a organizar a sua mala e lembrou que na noite anterior havia a chutado da cama fazendo com que caisse com um estrondo e desejou que as caixas de som que tinha guardado nela estivessem funcionando ainda. Guardou o pendrive no bolso da frente da mala e seu livro no bolso principal, junto com a caixinha. Levou o cachecol também, poderia ser útil afinal.
Abraçou sua mãe. Ele não sabia se continuava sorrindo desde a última vez, mas estava sorrindo naquela hora, mas dessa vez reprimiu-o.
Saiu de casa para pegar o elevador e desceu cantando a música que ouvira. Percebeu que sua voz não era tão boa quanto a do cantor original e desistiu lá pelo terceiro andar.
Caminhou pela rua e sentiu o frio. Sua blusa nova estava aprovada, pois manteve seu corpo quente, mas ainda sim o rosto desprotegido era castigado pela fina garoa que chorava das nuvens cinzentas que velavam o sol. Foi até a banca de jornais de seu pai e conversou com ele. Contou alguma curiosidade e perguntou como estava seu time, afinal um clássico tinha acontecido na noite anterior e este não fora televisionado em sua cidade, mas seu pai sabia de todos os acontecimentos do jogo como se tivesse assistido. Provavelmente vira os melhores momentos mas preferiu simplesmente admirá-lo. Pegou dinheiro e foi para o ponto.
Gostava de pegar ônibus, mas não sabia o motivo concreto. Era um momento estressante, e ao mesmo tempo pacífico, afinal, era um longo instante em que não precisava falar para se sentir a vontade, mas apenas mergulhar em seus pensamentos mais fúteis (raramente eram profundos quando estava em veículos. Perguntava-se se era por causa da velocidade, afinal quando caminhava seus pensamentos eram um pouco menos fúteis e parado, pareciam sempre profundos) e se preocupar com o horário para não se atrasar. Abriu o seu livro e achou a página em que tinha parado.
O livro não era um livro para se pensar, adequado para o rebolado do gigante ônibus de 3 articulações. Era uma aventura de espadas e escudos, heróis e princesas, sangue e ouro que tomava parte em um mundo em que suas preocupações costumavam ser qual seria a próxima garganta que a sua lâmina passaria. Pensou em si mesmo nesse mundo. Aparou um golpe de lança com o seu escudo e estocou a lamina curta em algo. Torceu, retirou, xingou alguma maldição, estocou novamente, errou. Passou por cima de um inimigo agonizante com uma ferida na virilha, chutou seu rosto, gritou, empurrou um escudo com o seu. O homem ao seu lado estocou o inimigo desequilibrado enquanto cortava seu tornozelo. O escudo levantado aparou um golpe de machado que grudou na madeira de tília. O ponto dele chegou e ele desceu do ônibus com velocidade, fechando o livro sem ver a página que havia parado. Ficou esperando o próximo tentando evitar a chuva, esgueirando-se pelas pessoas que se apinhavam no ponto. Quando o ônibus chegou, se posicionou de modo a pular dentro dele sem se molhar muito. Não funcionou tão bem como esperava, mas também não ficou tão molhado. Preocupou-se novamente com as caixas de som. Dormiu.
Acordou a uns cinco pontos do seu, então decidiu ficar alerta. Pensou no que haviam dito há um tempo sobre degustar das coisas e não curtí-las de qualquer jeito, então tentou observar a paisagem do local, mas perdeu-se nos seus pensamentos e em alguns segundos viu-se olhando pro infinito e pensando no seu sofrimento. Afastou o pensamento e levantou de modo a ficar ativo e pensar em nada. As janelas do ônibus estavam todas embaçadas e não conseguia ver direito o lado de fora, mas sabia qual era o seu ponto e não se preocupou. Metade do veículo se levantou para descer no mesmo ponto que ele e todos cambalearam quando passaram por uma lombada. Ouviu um xingamento vindo do fundo. Desceu no ponto com um salto e andou rápido para evitar a chuva, ou porque sempre andava rápido...Ou porque estava ansioso.
Entrou no prédio vazio, cumprimentou o segurança, virou o corredor e subiu as escadas em passo rápido, tropeçando no primeiro degráu e fazendo um escândalo que fez as faxineiras do local olharem. Ele levantou o pescoço de forma a tentar ver a porta do segundo andar e quem estivesse lá dentro mas a impressora tampou a sua visão. Continuou subindo, dessa vez mais rápido e entrou na sala sem fôlego, como se não se importasse com qualquer coisa que estivesse lá. Olhou para tudo, menos para ela, colocou sua bolsa na mesa, deu sua bochecha para ser beijada. Ela fingiu não notar ele também, cumprimentou-o e continuou fazendo seja lá o que estivesse a fazer. Ele sentou-se, tirou da bolsa seu livro, seu cachecol e suas caixas de som. Posicionou-as atrás do monitor, jogou os fios pelo vão da mesa e deitou-se no chão. Desligou um computador da tomada para ter vaga para a caixa, ligando-a na energia. Levantou-se e limpou-se. Lembrou-se das roupas novas e fez uma careta pela sujeira, então ignorou e ligou a caixa atrás do computador, fez um teste de som que falhou, então ligou na parte da frente, sendo bem sucedido dessa vez.
Sentou-se novamente, olhou para a tela do computador, guardou seus pertences na sua bolsa e finalmente olhou para ela. Desejou não ter olhado tanto, e provavelmente foi o único momento que realmente olhou, ou simplesmente fora um momento excepcional em que se pegou olhando. Sua felicidade misturou-se com desespero, com incapacidade, com sofrimento, então decidiu apenas não olhar. A presença por si só daria apenas a felicidade, talvez um pouco de desejo, mas não tanto, um dilema simples, "simples" ele dizia para si mesmo.
Não era tão simples assim, e apesar de saber, fingiu não se importar. De uns tempos para lá havia sido o melhor jeito que encontrara para seguir sem arrepios, calafrios ou palpitações, sem se entregar a essas sensibilidades do seu corpo, queria se igualar a ela.
Olhou para a tela novamente, ela ligou um video e começaram a conversar. Ele ficou feliz por conversar. Podia olhar para os olhos dela sem se perder nos pensamentos, podia olhar para sua boca se movendo sem sucumbir a desejos, podia tocar em seu cotovelo sem desejar tocar o braço, a mão, o rosto. Ele queria ser igual aos filmes, espontâneo, divertido, sábio e impulsivo. Ela pediu seu cachecol para proteger-se do frio. Ficou feliz por ter trazido-o, afinal, tinha sido útil. Expôs sua opnião com todo o cuidado de não parecer impôr-se ela sobre a opnião dela. A conversa tomou horas que no começo pareciam ser horas perdidas que poderiam estar a fazer outras coisas, mas foi simplesmente o contrário: as outras coisas tiravam as horas da conversa que para ele eram novas, ou pelo que se lembrava do tempo próximo, pareciam muito novas.
Foram almoçar. Levantaram-se finalizando a ideia da conversa e caminharam até o carro. O diálogo se tornou banal: "como está frio", "que droga esse ar-condicionado que não esquenta", "será que pode estacionar ai?". Ele riu por dentro. Não costumava rir, achava sua risada irritante, e toda rara vez que ria, procurava uma risada gostosa dentro dele, mas parecia forçada. Resolveu simplesmente rir por dentro. Ela jogou seus pertences para ele guardar em seus bolsos, então ele guardou o enorme "smiley" que soltava uma risada extremamente boba quando apertado em seu bolso da blusa, o único que cabia. Desejou ser que nem ele. Chegaram na fila do restaurante e ele foi procurar o ticket, perguntando pessoa a pessoa se estas tinha algum sobrando. Desceu em uma sala com o maior orgulho de ser O garoto a achar O japonês que vende os tickets na sala de computação. Trouxe triunfante os dois tickets escada a cima e deu um sorriso quando viu-a novamente, levantando os pequenos pedaços de papel como se fosse um troféu. Ela perguntou onde fora, e ele explicou, ela sorriu e continuou conversando com o vendedor de revistas. Seus olhos brilhavam (ela pelas revistas, ele por ela). Ele fez um comentário de modo a afastar seus pensamentos: "não sou muito fã". Entraram no restaurante. Estava com a barriga a reclamar há muito e o cheiro da comida despertou-a novamente. Eles se serviram, sentaram-se e começaram a conversar. O assunto foi principalmente a faculdade. Estranhou como tinham assunto sobre isso. Viam-se todos os dias, e conversavam sempre sobre as mesmas coisas: as matérias, as pessoas, a comida, as notas, as bolsas, os estágios. E sempre tinha algo para dizer, ou simplesmente repetiam as mesmas coisas. Não se importavam, pelo menos ele não se importava, gostava de conversar, tinha ido lá basicamente para isso. Ele sabia que não teria isso por um tempo, então queria ouvir o máximo da voz dela e gravar os gritinhos agudos, os palavrões, a voz embromada de sono ou ela falando, simplesmente falando.
Ela deu seu pão a ele e ele comeu. Sairam do restaurante e ela estendeu a mão pela chave do carro. Ele não entendeu, ficou meio perdido, então ela colocou a mão na blusa e tirou a chave. O toque idiota o fez sorrir. Ela invadira seu espaço intimo, mas, há muito, ela sempre invadira, e ele não se importava, nunca se importou. Ele mesmo invadia o dela, e com o tempo não havia mais esse espaço. Mas naquele dia ela invadira o seu e isso o incomodou, e o fez sorrir. Entraram no carro e não conversaram sobre nada diferente no caminho, nada alem do usual: "Putz, esse ar-condicionado tá queimando a minha cara", "Você tá com tanto frio assim?", "aí, acabou de passar por uma vaga...". Subindo as escadas discutiram qual filme deveriam assistir primeiro. Sentaram-se, acomodaram-se e ligaram o filme decidido. Ele configurou as legendas, testou e ouviu uma parte: "Do you have kids?" - "Yes! Two!". Desejou não ter ouvido, não queria saber dos filhos então fingiu não ter ouvido. Assistiram-no e pausaram diversas vezes porque o celular dela tocou, ou ele, inoportuno, queria fazer um comentário. Não gostava de deixar para discutir depois, pois eram tantas as cenas que desejava dizer algo que não lembraria de metade. Chegaram a cena dos filhos e riu: ela estava sendo irônica, não tinha filhos. Ele em compensação tinha um. Pensou em sua cabeça uma frase como "As coisas não são o que parecem", mas a frase não pareceu nem um pouco adequada, então abandonou esse pensamento. Perdeu-se diversas vezes em seus devaneios e se estivesse a assistir sozinho, teria voltado o filme, mas não quis atrapalhar e simplesmente ignorou as cenas que perdera. Pensou novamente o que haviam dito sobre degustar e ficou amargurado, então decidiu realmente prestar atenção, mas isso não fez com que se perdesse mais ou menos vezes. Ele simplesmente se perdia muito frequentemente.
O filme acabou com uma ponta desamarrada, e deliciou-se com algumas idéias do que poderia ser o próximo filme. Fez alguns comentários com ela e ficou olhando para o teto a pensar. Ela estava olhando algumas coisas na internet, ele espiou e viu um rosto, e este o fez virar a cara para não ler. Estava bem como estava.
Ela ligou o próximo filme, ele configurou as legendas. Há muito esperava para ver esse filme, por isso queria que ele ficasse por último. Pensou no motivo disso, e não fez muito sentido trocar a ordem. O filme era esperado, mas com o passar do assistir, não parecia tão esperado assim. Havia concebido esse momento em um sofá com um cobertor e com um pouco mais de toque. Desejou inclinar a cabeça sobre o ombro ou pegar a mão dela e isso causou uma angústia que o levou de volta ao filme. Logo em uma das primeiras cenas, seus olhos se encheram de lágrimas. Distanciou-se, limpou o rosto. Isso só foi acontecer novamente no fim do filme, mas não com tanta intensidade. No começo ele idealizou o que seria o filme. Já tinha assistido há muito e não lembrava exatamente, mas o filme idealizado era triste o suficiente para umidecer as suas maçãs. Ao assistir o filme, não tinha mais o mesmo gosto do que a primeira vez. Interpretou-o diferente.
Ao fim não fizeram nenhum comentário. Ele esperava algum. Ele esperava fazer algum. Havia esperado tanto esse dia, mas as palavras não saiam. Ele olhava para o rosto dela, e não via nenhum traço de quem fosse falar algo, ou quisesse ouvir algo. Ou simplesmente viu o que gostaria de ter visto. Ficaram mudos. Ela vendo a internet e ele...bem, ele não fez muito mais do que pensar, ou ficar criando coragem para abrir a boca e falar algo alem de uma banalidade. Ela mostrou alguns videos engraçados, ele riu, gostou. O pai dela ligou pedindo para ser buscado. Era hora de ir.
Levantaram-se, arrumaram as coisas. Ele novamente deitou no chão e desinstalou suas caixas de som. Pensou na roupa nova e fez uma careta. Limpou-se. Enrolou os fios cuidadosamente e colocou-as na mala. Sairam da sala. Ela deu o pendrive a ele e ele fez um comentário sobre que teria esquecido se não fosse por ela. Desceram as escadas. Ele precisava dizer algo, mas não disse, queria, mas não pode. Respirou o ar pesado. Eles caminharam. Ela disse que não poderia dar carona a ele, e ele consentiu, já esperava por isso. Ele precisava falar qualquer coisa, citar qualquer personagem, dizer qualquer cena, mas não o fez. Não achou o momento.
Eles caminharam até a saída. Ele a acompanhou até o carro. Tinha traçado um objetivo e deveria completá-lo. Foi até o lado dela, ela olhou para ele e o abraçou. Era isso, foi mais fácil do que imaginara. Ela riu enquanto abraçava, fez um comentário bobo, mas ele simplesmente degustou. Ele veio para isso e deveria pelo menos aproveitar algo. Escondeu seu rosto no cabelo e no ombro dela e percebeu que estava demorando muito para um simples abraço, então afrouxou e se despediu. Não olhou pra trás.
Gosto de dizer que ele não olhou pra trás já que era o que ele queria, mas na verdade ele olhou. Entrou em desespero porque achou que tinha esquecido o celular na sala e precisava pegar, e só ela poderia ter a chave, então ele gritou para chamar a atenção dela, mas ela foi indo com o carro. Já estava planejando uma desculpa para o segurança para abrir a sala, procurou dentro da sua mala e tateou seu bolso. Finalmente achou.
Ele completou seu objetivo. Acordara pensando nisso e foi até o fim.
Bem, o fim seria um pouco mais para frente. Descrevi toda a trajetória dele até aqui e faria sentido eu descrever o resto, seus pensamentos depois de tudo isso, o ônibus, as mensagens de celular, mas nem tudo são flores e dali pra frente nada foi tão bonito.
Ele decidiu degustar do seu próprio sofrimento.